São Paulo (EFE).- O possível enfraquecimento da Moratória da Soja, acordo criado para impedir a compra de grãos produzidos em áreas recentemente desmatadas da Amazônia, pode provocar perdas de pelo menos US$ 8,2 bilhões em serviços ambientais ao longo da próxima década, segundo estimativas do WWF-Brasil.
O cálculo considera o impacto econômico da perda de floresta sobre as chuvas que sustentam a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e a biodiversidade, além do risco de avanço do desmatamento em áreas ainda preservadas.
A projeção parte de um estudo divulgado em julho na revista científica Science, segundo o qual o enfraquecimento da moratória poderia resultar em 1,4 milhão de hectares adicionais de desmatamento na Amazônia em dez anos, um aumento estimado de 17% em relação ao cenário de referência.
Firmado em 2006 por empresas da cadeia da soja, o pacto estabelece restrições à comercialização do grão cultivado em áreas do bioma desmatadas depois de julho de 2008. O compromisso procurou dissociar a expansão agrícola da derrubada de vegetação nativa, direcionando novos plantios para terras já abertas.
Na avaliação econômica do WWF-Brasil, cerca de US$ 831,6 milhões das perdas previstas seriam consequência da redução das chuvas para a produção agrícola. A estimativa se apoia em pesquisas sobre a contribuição da floresta amazônica para a circulação de umidade e para o abastecimento hídrico de outras regiões brasileiras.
No setor elétrico, o prejuízo potencial fica entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões, devido aos efeitos de menores vazões dos rios sobre a geração hidrelétrica. A maior parcela, aproximadamente US$ 7 bilhões, está associada à perda de biodiversidade, que inclui recursos importantes para pesquisas farmacêuticas, biotecnologia e o equilíbrio de ecossistemas.
Esses valores representam projeções em um cenário de maior desmatamento, não prejuízos já registrados. A análise não contabiliza possíveis perdas comerciais decorrentes de restrições de compradores à soja ligada ao desmatamento, nem receitas potenciais do mercado de créditos de carbono.
O estudo também examinou os benefícios históricos do acordo e estimou em US$ 10,27 bilhões o valor econômico dos serviços ambientais preservados entre 2006 e 2016.
A discussão ganhou dimensão jurídica em agosto, quando o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade da moratória e determinou o encerramento de processos que questionavam a legalidade do acordo. A Corte, porém, também validou leis estaduais que restringem incentivos a empresas participantes de compromissos ambientais mais rigorosos.
O desafio de conciliar competitividade agrícola e proteção da floresta estará entre os temas do IV Fórum Latino-Americano de Economia Verde (FLEV), organizado pela Agência EFE nesta quinta-feira (3), em São Paulo.
Tiago Reis, líder da estratégia de mercados livres de desmatamento e conversão do WWF-Brasil, participará do painel “Tecnologia, sustentabilidade e liderança — o futuro do agronegócio e da bioeconomia na América Latina”, ao lado de representantes da Sustainable Agriculture Network/Imaflora, da ApexBrasil e do IICA.
O evento conta com patrocínio da ApexBrasil e do WWF-Brasil e apoio de AYA Earth Partners, Imaflora e Observatório do Clima. EFE






