Desencanto político de jovens desafia democracias consolidadas da América Latina

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São Paulo (EFE).- Considerados referências regionais de estabilidade democrática e institucionalidade, Chile, Costa Rica e Uruguai enfrentam um desafio comum: a desconexão de seus jovens em relação à política tradicional.

Embora essas nações contem com um sólido capital cívico, seus jovens apresentam um compromisso volátil e insatisfação com a capacidade de resposta dos partidos.

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A juventude chilena combina uma intensa mobilização na última década, marcada pelos protestos e pela explosão social de 2019, com uma elevada desconfiança institucional.

A Fundação Friedrich Ebert (FES) revelou, em 2025, que, embora 70% dos jovens no Chile prefiram viver em uma democracia, apenas 25% se declaram satisfeitos com seu funcionamento atual.

O retorno do voto obrigatório em 2022 aumentou o comparecimento às urnas, mas gerou “eleitores forçados”.

Para que essa mudança nas regras seja positiva, segundo Rodrigo Espinoza, cientista político da Universidade Diego Portales (UDP), seria “fundamental” fortalecer a educação cívica.

“Não basta ter regras que levem ao voto obrigatório, é preciso que os jovens estejam informados e conscientes em relação às alternativas em que votam, que não seja meramente uma expressão de determinadas emoções, mas um voto mais racional”, afirmou Espinoza à Agência EFE.

Nas últimas eleições, vencidas pelo ultradireitista José Antonio Kast, esse eleitorado mostrou uma alta intenção de votar (76%), mas uma forte volatilidade: 30% decidiram seu voto entre a última semana e o próprio dia da eleição, segundo uma pesquisa da CICLOS UDP e da Feedback Research.

COSTA RICA: EROSÃO EM DEMOCRACIA LONGEVA

Na Costa Rica, uma das democracias mais estáveis da região, os jovens vivem um descontentamento gradual, sinal de rejeição a uma política que consideram distante.

Segundo a FES, 40% dos entrevistados entre 15 e 35 anos disseram preferir um governo autoritário a um democrático, contra 49% que preferem o democrático.
Além disso, o estudo de 2024 revelou que apenas 17% dos jovens manifestam interesse pela política, enquanto 46% dizem ter “pouco ou nenhum interesse”.

O cientista político do Instituto de Estudos Sociais em População da Universidade Nacional da Costa Rica José Andrés Díaz disse que esse “desencanto” vem sendo gestado há décadas, sem que os partidos, transformados em “máquinas eleitorais”, encontrem canais de conexão com a cidadania.

“Os estudos mostram que os jovens começam a sentir um desencanto com a democracia, que não é um fenômeno apenas da Costa Rica, essa percepção de que sentem que a democracia falhou com eles, que não dá uma resposta adequada aos seus problemas, que as políticas sociais, a educação e a economia não foram fortalecidas”, explicou Díaz.

URUGUAI E O DESAFIO DOS PARTIDOS TRADICIONAIS

Ter aprendido com os erros e ter paixão pela política são, para o cientista político Adolfo Garcé, as chaves do modelo de sucesso do Uruguai em termos democráticos.

O doutor em Ciência Política e professor universitário disse à EFE que o país fez um esforço para identificar onde estão os erros e corrigir suas práticas.

“Em termos teóricos: capacidade de reflexão, evolução cognitiva, olhar-se no espelho, levar a sério os problemas políticos”, resumiu Garcé.

Por outro lado, ele acredita que o Uruguai foi capaz de resolver o mistério de como construir partidos políticos.

Das três legendas mais votadas, Partido Nacional e Partido Colorado foram fundados em 1836, e a Frente Ampla em 1971.

Além de se moldarem aos tempos para perdurar, esses partidos tiveram “um pouco de engenhosidade eleitoral” para incentivar a participação dos jovens.

Para Garcé, a Frente Ampla sempre teve uma grande capacidade de atrair esse segmento da população, e tanto o Partido Nacional quanto o Partido Colorado encontraram algumas soluções institucionais, como a criação de eleições específicas para escolher jovens integrantes para seus diretórios.

Segundo a socióloga Mariana Pomiés, diretora da consultoria Cifra, 43% dos jovens uruguaios expressam “muito ou bastante interesse” pela política, superando gerações anteriores.

Por sua vez, o representante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, Claudio Providas, enfatizou que países pequenos como Uruguai e Costa Rica se beneficiam de um investimento histórico de mais de um século em educação universal e de um tecido social mais homogêneo.

Tentar transferir essas lições para países com alta diversidade e desigualdades territoriais, como Brasil ou Colômbia, é um desafio maior que consiste em descentralizar os canais de participação e envolver a juventude não como receptora passiva, mas como coautora das políticas públicas. EFE