Sombra do lobby do petróleo paira sobre cúpula mundial do clima em Belém

São Paulo (EFE).- Organizações ambientais temem que a próxima cúpula do clima da ONU (COP30), que será realizada em novembro, em Belém (PA), se torne uma vitrine comercial para o lobby do petróleo, que tem aumentado sua presença nas últimas edições do evento.

O setor de combustíveis fósseis defende uma tecnologia controversa para reduzir suas emissões: os sistemas de Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS, na sigla em inglês), que ambientalistas consideram uma “falsa solução”.

Os defensores dessa fórmula, sobretudo empresas petrolíferas, estão cada vez mais numerosos nas cúpulas climáticas.

De acordo com dados do Centro para o Direito Ambiental Internacional (CIEL, na sigla em inglês), o número de lobistas pró-CCUS credenciados para a COP28 de Dubai chegou a 475, número que subiu para 480 na COP29 de Baku.

A COP chega agora ao Brasil, uma potência verde, lar de biomas como a Amazônia e o Pantanal, mas também petrolífera.

O país já está entre os dez maiores produtores mundiais de petróleo, segundo dados de 2024 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás.

Rachel Kennerley, responsável pela campanha internacional sobre Captura de Carbono do CIEL, espera “uma delegação considerável de lobistas de Captura e Armazenamento de Carbono na COP30, apesar do histórico de fracassos dessa tecnologia”.

“Esse nível de pressão é preocupante, embora não surpreenda, já que a tecnologia CCUS representa uma tábua de salvação para as indústrias de carvão, petróleo e gás, que buscam maneiras fantasiosas de evitar uma ação climática efetiva”, afirmou ela à EFE.

O QUE É CCUS?

Trata-se de um conjunto de tecnologias que buscam reduzir as emissões de dióxido de carbono. Há quatro etapas nesse processo.

Para capturar o CO2, ele é separado dos demais gases em grandes instalações industriais ou diretamente da atmosfera. Depois, pode ser comprimido e transportado através de dutos ou navios. E, por fim, é armazenado em formações geológicas subterrâneas ou reutilizado em processos industriais.

A Petrobras alega que tem o “maior” programa de captura de CO2 “do mundo em operação”.

“Em 2022, batemos o recorde mundial de CCUS, segundo o Global CCS Institute, alcançando a marca de 10,6 milhões de toneladas reinjetadas — o que equivale a 5,8 bilhões de m³ de CO2”, aponta a companhia.

“MAQUIAGEM VERDE”

No entanto, Ilan Zugman, diretor para a América Latina e o Caribe da ONG 350.org, que integra a rede Observatório do Clima, adverte que é uma tecnologia “cara” e “muito perigosa”.

“Tem que ser armazenado em áreas profundas e vigiado por décadas. Existe um risco de vazamento, de explosões. As petrolíferas querem seguir com seus negócios e colocar uma maquiagem verde”, denunciou.

Ele esclareceu que capturar e reinjetar não são a mesma coisa.

“A Petrobras faz muita reinjeção de gás (…) para manter a pressão interna do campo e assim facilitar a saída de mais petróleo”, explicou.

Kennerley disse que “já há governos que estão canalizando bilhões de dólares de fundos públicos para as tecnologias CCUS, apesar de seu histórico de fracassos”, já que “78% dos projetos em grande escala foram cancelados ou suspensos”.

Nesse sentido, Zugman apoia que a ONU estabeleça uma política de conflito de interesses nas cúpulas climáticas e limite o número de lobistas do setor de combustíveis fósseis.

“Espero que o Brasil possa trabalhar com a ONU mais de perto para ter um filtro melhor porque as COPs se tornaram, até certo ponto, uma plataforma de negócios com empresas se posicionando como a solução quando são o contrário”, afirmou.

Esse será um dos temas do III Fórum Latino-Americano de Economia Verde, que será realizado pela Agência EFE amanhã em São Paulo.

O evento reunirá autoridades e especialistas para abordar a crise climática e conta com o patrocínio de ApexBrasil, Norte Energia e Lots Group, além do apoio de IBMEC, Observatório do Clima e Imaflora. EFE