Buenos Aires (EFE).- Os brigadistas comunitários do Brasil, primeira linha de defesa contra os incêndios florestais nos territórios onde vivem, enfrentam atualmente dificuldades crescentes devido às suas condições precárias de trabalho e à falta de financiamento, enquanto, na véspera da cúpula de líderes da COP30, em Belém, as secas se agravam por causa das mudanças climáticas.
Cientistas, analistas e integrantes das equipes de emergência florestal consultados pela EFE concordam quanto à necessidade de aumentar o apoio aos brigadistas, por meio de um conjunto de iniciativas que incluem a regularização e o reconhecimento legal de seu papel como trabalhadores permanentes, além de facilitar o acesso a fundos públicos e privados para melhorar seus equipamentos.
Em 2024, o Brasil registrou 278 mil focos de calor (46% a mais que no ano anterior), enquanto a área queimada foi 20 vezes maior do que em 2023 na Amazônia e 50 vezes maior no Pantanal.
Um risco cotidiano
Ane Alencar, cientista do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), explicou à EFE que as mudanças climáticas pioraram cada um dos fatores do “triângulo do fogo”: o material vegetal combustível, as condições climáticas e a fonte de ignição.
Em sua visão, este último é o fator em que a ação humana é determinante:
“Precisamos continuar reduzindo o desmatamento e administrar melhor nossos campos de pastagem, que muitas vezes são manejados com o uso do fogo”.
Em áreas de expansão da fronteira agropecuária, a queima intencional de pastagens é uma das principais causas dos incêndios florestais. Quando quem inicia o fogo não consegue controlá-lo, as chamas alcançam a vegetação nativa, e os brigadistas locais — às vezes munidos apenas de sua experiência e disposição — entram em ação.
Uma dessas brigadas é a de Alter do Chão, no Pará, que vigia mais de 1,2 milhão de hectares e realizou, apenas no ano passado, 51 combates diretos e 42 ações de prevenção.
“Nossa saúde é profundamente afetada. A exposição constante à fumaça, ao calor extremo e ao esgotamento físico coloca nossa integridade em risco, enquanto a falta de acompanhamento médico e psicológico agrava ainda mais a situação”, disse à EFE Caroline Dantas, fundadora do Instituto Cafuringa de Brasília, que forma brigadistas.
Segundo ela, quatro brigadistas morreram desde 2020 apenas em sua região em consequência do combate ao fogo.
Direitos para os brigadistas
Um exemplo da precariedade do setor é o tipo de contratação: após um período de trabalho, muitos brigadistas precisam esperar dois anos para serem contratados novamente — uma regra que dificulta a continuidade e a profissionalização.
Henrique Gonçalves de Freitas, diretor da consultoria política brasileira Pulso Público, explicou à EFE que o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva promoveu iniciativas para melhorar o financiamento federal às equipes de brigadistas, mas elas não conseguem o apoio parlamentar necessário.
Victoria Matusevich, coordenadora programática da Fundação Avina, disse à EFE que é necessário “reduzir a distância entre quem concede o financiamento e quem o recebe”, pois muitos potenciais beneficiários ficam de fora devido a requisitos exigentes, prazos curtos de inscrição e exigências rígidas de prestação de contas.
Matusevich, que lidera na Avina uma iniciativa colaborativa para aumentar o financiamento climático destinado a comunidades locais, afirma que não basta esperar o avanço das iniciativas estatais; é necessário desenvolver um “ecossistema de financiamento”, envolvendo fundos públicos, privados, multilaterais e filantrópicos.
Para ela, a COP30 é uma grande oportunidade para que o Brasil lidere uma agenda global na qual o manejo integrado do fogo deixe de ser uma resposta emergencial e se torne uma política climática central para adaptação e para a agenda de perdas e danos — em que a justiça climática reconheça as brigadas voluntárias e comunitárias como atores essenciais na prevenção e na proteção da vida e dos ecossistemas. EFE