Convergência tecnológica rompe barreiras e traz novos riscos, alerta IEEE

São Paulo (EFE).- A convergência de tecnologias como o 5G, a inteligência artificial (IA), a Internet das coisas (IoT) e a realidade aumentada e virtual é a nova tendência, que promete romper barreiras na relação entre humanos e máquinas, mas que também traz consigo mais riscos de segurança, segundo especialistas.

De acordo com pesquisadores e membros do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), que trouxeram o debate à tona durante a Futurecom, principal evento de tecnologia da América Latina se realiza em São Paulo entre esta terça e quinta-feira, o aumento da conectividade e da integração trazem grandes oportunidades para setores como indústria, e-commerce ou saúde e novas facilidades para os indivíduos.

No entanto, essas possibilidades abrem as portas também para uma maior vulnerabilidade e riscos à cibersegurança causados pelo aumento da superfície de ataques de hackers, e também para um impacto mais extenso dessas ações criminosas.

Dessa forma, a prevenção e o combate a essas ações assumem um papel de destaque entre os maiores desafios para o avanço tecnológico, principalmente no Brasil, que enfrenta um atraso nesse processo em comparação com os Estados Unidos e com países europeus e asiáticos.

Cibersegurança, um grande desafio para o Brasil

Nesse sentido, o professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e membro do IEEE Jéferson Campos Nobre destacou em entrevista à Agência EFE que o Brasil é um grande gerador e um grande alvo de ataques cibernéticos.

“Temos uma posição um pouco ingrata no sentido de ser um país onde ocorrem muitos ataques. Além disso, contamos com um pessoal muito capacitado, mas que nem sempre usa esses conhecimentos da melhor forma possível e por isso somos grandes geradores de ataques também”, lamentou o especialista em cibersegurança.

Para ele, o país conta com boas legislações, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrou em vigor em 2020, mas criticou a falta do seu cumprimento e de fiscalização e acompanhamento por parte das autoridades.

“A LGPD é muito próxima da legislação europeia, mas a sua aplicação precisa melhorar bastante no Brasil”, insistiu Nobre.

Por sua vez, o professor do Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (UFG) Fabrizzio Soares disse à EFE que os riscos são muito semelhantes aos que já enfrentamos hoje com smartphones e defendeu o aumento de investimentos em criptografia para melhorar a segurança e fazer frente a ataques diretos de hackers.

Já Carmelo Filho, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado de Pernambuco e também membro do IEEE, reconheceu que devido a conectividade e à integração, ataques hackers podem prejudicar toda uma linha de processo produtivo, e chegar a paralisar uma fábrica, e por isso é necessário optar por ferramentas mais seguras.

“Uma das tendências que estão sendo discutidas internacionalmente justamente a utilização do li-fi, que é uma versão ótica do wi-fi, pelo fato de ser mais seguro, além da utilização do 5G com algumas adequações pensando justamente na segurança de dados”, explicou o professor da Universidade de Pernambuco (UPE).

Saúde, um dos setores mais vulneráveis

Para Nobre, que trabalha com pesquisas relacionadas ao setor da saúde, a maior conectividade possibilitada pelo 5G e pela convergência das tecnologias habilitadoras abre muitas oportunidades para a prática da medicina à distância e para a qualidade de vida de pacientes.

Essas ferramentas possibilitam a realização de consultas e monitoramentos à distância, até mesmo em tempo real, e coordenam o funcionamento de máquinas e equipamentos, mas a falta de cultura tecnológica torna mais vulnerável um setor que vem sendo cada vez mais alvo de ataques.

“A tecnologia está presente há menos tempo na saúde, então nós temos um déficit em relação à adoção de medidas de segurança e, particularmente, na capacitação dos profissionais da área em segurança cibernética, o que é muito relevante no contexto brasileiro”, explicou o professor da UFRS.

De acordo com o pesquisador, novas possibilidades de ataques começam a acontecer devido à conectividade de equipamentos, e isso tem implicações não dentro de clínicas ou hospitais, mas também em todos os ambientes em que o paciente transita. 

Além disso, grande parte das informações que transitam por essas redes e por esses dispositivos são consideradas sensíveis, por se referirem ao estado de saúde do paciente, e falhas na segurança que comprometam a confidencialidade de dados e disponibilidade e integridade e equipamentos podem gerar prejuízos irreparáveis.

“Além de poder expor pacientes em relação a doenças ou informações genéticas confidenciais, a indisponibilidade de equipamentos também pode levar à morte ou impedir a detecção de condições severas de saúde”, ressaltou Nobre.

Otimização da indústria, uma necessidade urgente para o Brasil

Apesar dos riscos de segurança, a integração das tecnologias habilitadoras agrega valor ao desenvolvimento de soluções que podem ser aplicadas desde o dia-a-dia dos seres humanos até os diferentes tipos de indústrias, tornando-se uma ferramenta essencial para o desenvolvimento econômico de diversos países, entre eles o Brasil.

“Isso é urgente para o Brasil, porque o país trabalhou muito no processo de industrialização nos anos de 1970 e 1980 e depois a participação do setor de serviços passou a aumentar enquanto a industrialização tem diminuído”, argumentou Carmelo Filho.

De acordo com ele, algumas indústrias no Brasil já estão começando a implementar tecnologias para a integração de todo o processo produtivo, desde a cadeia de fornecimento até a produção e a logística, com um controle sistemático e customizado de toda a linha de produção, o que pode aumentar a eficiência e facilitar seu crescimento.

“O Brasil precisa se preocupar com isso, porque se não tiver uma base econômica produtiva, a gente não vai conseguir desenvolver os serviços digitais que de fato são importantes e necessários, e vai se tornar uma economia frágil”, alertou o pesquisador.

Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado de Pernambuco e também professor, Filho contou que trabalhou nos últimos dois anos com 50 indústrias de grande, médio e pequeno porte para levar essas novas tecnologias.

“Esse tipo de tecnologia pode aumentar a eficiência e traz outras possibilidades como a customização de produtos a partir do momento em que você tem todo o controle da linha de produção com a utilização de robôs móveis, braços robóticos integrando, entre outros”, detalhou.

“Em alguns casos a gente conseguiu ver melhoria de eficiência de 30% em uma determinada linha de produção somente reorganizando e automatizando”, acrescentou.

A relação entre o ser humano e a tecnologia

A convergência e a integração das tecnologias habilitadoras também pretende romper barreiras que alteram a relação entre seres humanos e as máquinas também na rotina das pessoas, com dispositivos inteligentes que ajudam na organização das tarefas diárias e da casa.

“No Brasil a gente está começando muito pelos assistentes de voz como Alexa ou Google, que usam esses comandos e outras interpretações de comportamento para controle de iluminação, abrir e fechar portas, lembrar de atividades. Mas a evolução desses dispositivos vai depender muito de como a gente vai lidar com as informações”, disse à EFE Soares.

O professor da UFG explicou que a adesão a todas essas tecnologias passa por um estudo de comportamento e aceitação do público, e afirmou acreditar que 10 em anos o uso desses dispositivos alcançará uma escala muito maior, principalmente entre indivíduos de classe média.

“A adesão é um processo lento, implica uma mudança na rotina e troca de itens dentro da casa (…) É difícil fazer uma estimativa de longo prazo, mas há empresas grandes que estão investindo para que esses equipamentos cheguem até as residências, e acredito que na próxima década o planejamento de uma casa já incluirá o espalhamento dos elementos de automação e de IoT”, opinou Soares. 

No entanto, ele lembrou que um dos maiores desafios para a massificação do consumo dessas tecnologias é o custo dos dispositivos e o fato de a maioria deles serem importados.

“Precisamos focar mais na nacionalização de certos equipamentos. No Brasil, muitas dessas tecnologias são de produção chinesa, então temos que nos concentrar na coleta de dados e adequar isso com inteligência para extrair comportamentos e sugestões que possamos encaixar no dia-a-dia do público brasileiro, que é diferente do chinês ou do americano”, argumentou o membro do IEEE. EFE