Qatar, um país Mundial

Javier Picazo Feliu.

Doha (EFE).- Conservador, multicultural, acolhedor e seguro. Assim é o Qatar, um pequeno país de contrastes, com menos de 3 milhões de habitantes, dos quais 80% são estrangeiros e que, em apenas 12 dias, receberá a Copa do Mundo, sua grande aposta para se abrir ao planeta e demonstrar surpreendente evolução.

O torneio de futebol, sem dúvida, é um dos mais polêmicos da história, tanto pelos casos de corrupção na Fifa, envolvendo a escolha do país como sede, como pelas condições trabalhistas de operários migrantes nas obras dos estádios e outras infraestruturas, assim como pela desigualdade entre homens e mulheres e censura ao coletivo LGBTQ+.

“Acho que houve muitas perguntas e debate sobre esses assuntos, mas quero tranquilizar as pessoas. Sim, o Qatar é um país conservador, é um país de pudores. Porém, as restrições às pessoas e à forma como vivem não são tão grandes como fazem acreditar”, afirmou à Agência EFE o diretor-executivo do comitê organizador local, Nasser Al-Khater.

Trata-se de um país com normas culturais e religiosas identitárias. Em geral, é recomendado se vestir cobrindo os ombros e até abaixo do joelho. Está restrito o consumo de álcool, não são bem-vindas as demonstrações de afeto entre casais, e é melhor não ficar tirando fotos de pessoas sem autorização.

Além disso, cuspir na rua ou jogar lixo no chão são atos punidos com multas, além de existir tolerância zero com o consumo de drogas.

“A demonstração pública de afeto não é algo a que estamos acostumados aqui. Os homens e as mulheres podem dar as mãos, podem se abraçar, ocasionalmente. Mas, você sabe, indo mais além, devem entender que as pessoas podem olhar ou dizer algo”, afirmou Al-Khater.

“As pessoas que entendem a cultura virão aqui e a respeitarão. Somos muito acolhedores e hospitaleiros”, complementou o dirigente.

A pluralidade cultural do Qatar

O país é o segundo do mundo com maior porcentagem de imigrantes entre a população, com pessoas de quase 200 nacionalidades vivendo nele. A região metropolitana de Doha é um autêntico caldeirão multicultural de 2 milhões de habitantes, ultramoderna e centro econômico do país.

“Temos muitos europeus, americanos, sul-americanos, pessoas da Ásia. Vivem aqui e se sentem confortáveis. Enxergam o Qatar como um dos países mais seguros do mundo, o mais seguro do mundo árabe. Em geral, estão aqui porque tudo é positivo em termos de liberdade. As pessoas virão e verão que quase todo esse debate foi em vão”, garantiu Al-Khater.

A primeira coisa que chama a atenção na chegada ao Qatar é a sensação de estar em um país novo. Todas as ruas, infraestruturas, transportes ou prédios aparentam perfeição. O planejamento em termos de sustentabilidade é brilhante, como, por exemplo, a ‘smart city’ Msheireb, com edifícios com design inovador.

É um local que deixou de ser aldeias de pescadores para se tornar um país próspero impulsionado pelo petróleo e o gás natural, voltado agora para o desenvolvimento do turismo e da educação, seus principais pilares de crescimento, com a Qatar Foundation como bandeira.

Conseguir se tornar sede de uma Copa do Mundo acabou sendo a cereja do bolo. 

“Para nós, é mais do que futebol. De fato, faz parte do nosso Plano de Desenvolvimento Nacional 2030. A Copa do Mundo é um catalisador para avançar com esse plano, e garantimos que tudo está preparado para organizar um dos espetáculos mais importantes do planeta”, afirmou Fatma Al-Nuaimi, diretora da comunicação do comitê local.

Legado da Copa para o Qatar

A organização da Copa do Mundo espera que o torneio atraia cerca de 2 milhões de visitantes, o que fez acelerar o planejamento de renovação de infraestruturas, com um investimento que girou em torno dos US$ 200 bilhões e que é tratado como legado para o país e para a população.

Nas obras, diversas organizações de defesa dos direitos humanos denunciaram abusos contra operários migrantes, falta de pagamento de salário ou condições extremas que chegaram a causar mortes. Críticas e denúncias que o país responde com a adoção de medidas “em tempo recorde” para acabar com os problemas.

Entre elas, estão a aprovação de um salário mínimo no país e a “abolição” do sistema de patrocínio que amarra os funcionários aos interesses dos empregadores.

“As pessoas podem encontrar e ler muitos artigos desinformados sobre o Qatar, mas teremos mais de um milhão de torcedores que virão e vão provar eles mesmos. Este será um dos legados mais verdadeiros que teremos nesse evento. As pessoas mudarão a percepção e, então, poderão emitir um juízo próprio”, disse Al-Nuaimi.

A organização preparou tudo para o Mundial. Com gastronomia, cultura e atividades específicas para mostrar ao mundo seu potencial.

“Temos um plano para garantirmos que os fãs conheçam um novo sabor, uma nova música, novos pratos. Algo novo para eles. E será o modo de enriquecer sua experiência, será o que levarão quando voltarem para casa”, prometeu Al-Nuaimi.

Informações importantes

A península do Qatar tem superfície de 11,5 quilômetros quadrados formada por ilhas, áreas de preservação, 563 quilômetros de costa e deserto, com cerca de 1,8 mil quilômetros quadrados de dunas brancas.

O clima é desértico, mas, no inverno, quando acontecerá a Copa do Mundo, a temperatura é moderada, variando de 15 a 30 graus.

O idioma oficial é o árabe, mas o inglês é muito difundido. A religião é o islamismo, e a lei que impera é a sharia, com normas de proteção baseadas em interpretações do Corão e da Sunna (ensinamentos do profeta Maomé).

A semana de trabalho vai de domingo até quinta-feira, sendo que sexta-feira e sábado compõem o fim de semana.

Às sextas, bancos e outros serviços fecham as portas, e alguns estabelecimentos interrompem o funcionamento para a oração do meio-dia.

Durante a Copa do Mundo, as escolas entrarão em férias de 20 de novembro até 22 de dezembro, para reduzir o trânsito durante a competição e permitir que os estudantes acompanhem os jogos.

O emir é o chefe de Estado, sendo que Tamim bin Hamad al-Thani ocupa o cargo desde 2013, quando o pai dele, Hamad bin Khalifa Al-Thani, abdicou após 17 anos de reinado.

O poder da família remonta às tribos do início do século XVIII. Trata-se de um país relativamente jovem, com uma primeira Constituição sendo promulgada em 1972, após independência do império britânico. EFE