Julian Assange. EFE/Arquivo/GUILLAUME HORCAJUELO

Assange pede prisão para dono de empresa espanhola de segurança por espioná-lo em Londres

Madri (EFE).- O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, pede 20 anos e meio de prisão para o proprietário da empresa espanhola responsável pela segurança da embaixada do Equador em Londres por espioná-lo durante seu asilo e entregar a terceiros informações “obtidas ilegalmente” sobre ele e outras personalidades, entre elas vários presidentes latino-americanos.

Na acusação apresentada ao Tribunal Nacional Espanhol, à qual a Agência EFE teve acesso, Assange solicita a pena para David Morales, gerente da empresa Undercover Global (UC Global), por revelação de segredos, organização criminosa, suborno, posse ilegal de armas e lavagem de dinheiro.

Ele solicita outra pena de cinco anos de prisão para o responsável pelas operações da UC Global, Michel Wallemacq, neste caso apenas pelo crime de descoberta e revelação de segredos, assim como exige que ambos o indenizem em 30 mil euros, que serão depositados diretamente em favor da organização independente Plataforma pela Liberdade de Informação (PLI).

Outras vítimas, como o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, também apresentaram acusações contra os responsáveis da UC Global com pedidos de penas semelhantes.

Após quase 14 anos de briga na justiça pela divulgação, através do WikiLeaks, de documentos classificados nos Estados Unidos – grande parte dos quais passou preso na Embaixada do Equador em Londres -, Assange foi libertado em dezembro de 2024.

Em sua petição, Assange lembra que, como jornalista à frente do WikiLeaks, ele se viu no centro de “graves represálias e perseguições políticas” em 2010, após divulgar arquivos que revelavam “graves violações dos direitos humanos e crimes de guerra cometidos por militares americanos” em Iraque, Afeganistão e prisão de Guantánamo (Cuba).

Após a divulgação e para evitar os mandados de prisão contra ele – entre eles um da Suécia por acusações de abuso sexual, que depois foram retiradas -, ele se refugiou em 2012 na Embaixada do Equador em Londres, onde permaneceu até 2019.

Entre 2015 e meados de 2018, a segurança da embaixada equatoriana foi confiada à UC Global.

Foi em 2016, diz o documento, que Morales assinou acordos ilegais com autoridades americanas “para lhes fornecer informações confidenciais” sobre Assange e seus advogados.

Para isso, em 2017, foram instaladas novas câmeras de segurança que, ao contrário das anteriores, gravavam o áudio das conversas que o ativista mantinha com sua defesa e seus familiares, assim como com várias personalidades.

Entre elas, seu advogado, o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón; o ex-vice-presidente do Governo espanhol Pablo Iglesias; e os ex-presidentes de Brasil, Dilma Rousseff; Bolívia, Evo Morales; Equador, Rafael Correa; Argentina, Cristina Fernández de Kirchner; e Uruguai, José Mujica.

Durante o processo de instalação das câmeras, Morales exigiu ainda que os técnicos habilitassem um sistema de acesso externo (streaming), o que permitiu abrir dois canais, um oficial para o Equador e outro para “os amigos dos EUA”.

Ao longo da investigação judicial, Garzón acusou diretamente os EUA pela espionagem e afirmou que a UC Global relatava “regularmente, minuciosamente e detalhadamente” o que a equipe de defesa de Assange fazia.

Em 2022, um grupo de jornalistas e advogados processou em Nova Iorque a CIA e o seu ex-diretor Mike Pompeo por supostamente espionarem as suas conversas com Assange na embaixada do Equador em Londres.

A investigação comprovou que Morales fez pagamentos de alto valor a funcionários equatorianos, canalizados por meio de intermediários e estruturas opacas, com o objetivo de garantir a continuidade do contrato dos serviços de segurança.

Correa pede por esses fatos 13 anos de prisão para Morales e outros seis para o responsável pelas operações da UC Global, além de uma condenação por multa e dissolução da empresa.

Em seu escrito, ao qual a EFE teve acesso, o ex-presidente equatoriano declara que estava à frente da Presidência do Equador quando Assange se refugiou na embaixada e ressalta que, além da segurança na delegação diplomática, a UC Global também foi contratada para proteger suas filhas, que iam estudar na França, e, quando seu mandato terminou, para garantir sua segurança e a de sua família.

Durante esse tempo, denuncia, “os seus direitos foram gravemente violados” pela empresa, que “realizou uma série de ações de caráter claramente ilícito, chegando a implementar uma verdadeira operação de espionagem”. EFE