George Robertson. EFE/Raúl Bové

Ex-chefe da Otan descarta ataque de Trump à Groenlândia e acredita em “tática negociadora”

Raúl Bobé |

Londres (EFE).- O ex-secretário-geral da Otan George Robertson disse acreditar que os Estados Unidos não atacarão militarmente a Groenlândia e que a escalada retórica sobre a ilha é apenas uma “técnica de negociação” do presidente americano, Donald Trump, conforme expressou em entrevista à Agência EFE.

Robertson, aos 79 anos, acaba de participar dos eventos de comemoração do 80º aniversário da ONU, celebrados no Methodist Central Hall, em Londres. Na lapela do paletó, usou um broche com as bandeiras do Reino Unido e da Ucrânia entrelaçadas.

O político britânico esteve à frente da Otan entre 1999 e 2003. Duas décadas depois, ele afirma que a Aliança está mais forte porque há mais países, mas ao mesmo tempo mais fraca porque alguns membros “não aderem aos princípios básicos de defesa coletiva e questionam elementos fundamentais, como o artigo 5º”.

Este ponto do Tratado do Atlântico Norte, que estabelece que um ataque armado contra um membro da Otan será considerado um ataque contra todos, voltou a ser tema de discussão após as ameaças — às vezes militares, outras vezes tarifárias — de Trump de anexar à força a Groenlândia, atualmente sob soberania da Dinamarca, também membro da Aliança.

Nesse sentido, Robertson afirma que uma eventual intervenção militar na ilha ártica por parte dos Estados Unidos acarretaria “problemas reais” para a Otan e colocaria em risco a sua própria existência, mas se mostrou convencido de que isso não irá acontecer.

“Não creio que seja realista. Acho que pode muito bem ser uma tática de negociação. É bem possível que o presidente Trump, aos 80 anos, esteja envolvido nessa negociação”, afirma o ex-secretário-geral da Aliança.

Robertson ressaltou, ainda, que os Estados Unidos são muito mais do que Trump.

 “Há também o Congresso, e nos últimos dias alguns membros republicanos deixaram claro que não apoiam o que o presidente diz sobre a Groenlândia e que acreditam firmemente na Otan. Além disso, foi o secretário (de Estado dos EUA, Marco) Rubio quem elaborou a resolução que diz que apenas o Congresso pode retirar o país da Aliança”, analisou.

Ártico, um potencial campo de batalha

Embora descarte, por enquanto, uma invasão americana da Groenlândia, o ex-chefe da Otan afirma que a região ártica será cada vez mais importante para a segurança, tanto europeia quanto global, e por isso considera importante aumentar a presença da Aliança na zona.

“A Rússia está se tornando mais agressiva, a China reivindica ser uma nação ártica, a rota do mar do Norte está se expandindo e há uma grande quantidade de minerais raros na região. Portanto, inevitavelmente, ela se tornou um campo de disputa e de potencial conflito no futuro”, analisou Robertson.

Para além do Ártico ou do conflito na Ucrânia, o político britânico afirma não ter “nenhuma dúvida” de que o Ocidente já “está a ser atacado” pela Rússia e outros países através de “ciberataques, assassinatos seletivos, sabotagens organizadas, interferências eleitorais e campanhas de desinformação”.

“Temos que estar cientes disso, estar preparados para isso e ser capazes de combatê-lo”, acrescentou.

Nesta linha, Robertson defende que a Otan deve ser “testada” e demonstrar que tem capacidade para defender “cada milímetro do seu território”, mas isso implica gastar muito mais dinheiro, especialmente entre os países europeus, para estarem preparados para a guerra e como medida dissuasora para quem possa tentar desafiá-los.

Na Cúpula da Otan de 2025 em Haia, todos os aliados se comprometeram a destinar 5% de seu produto interno bruto para defesa e segurança até 2035, exceto a Espanha, um dos membros que menos investe nessa área, que negociou um acordo flexível de até 2,1%.

“A postura é correta e foi acordada coletivamente. A Espanha ficou de fora desse acordo, mas eles sabem o que têm que fazer. É uma grande montanha a escalar, 5% é muito dinheiro, bilhões de dólares, mas para que o continente esteja seguro, será necessário gastá-lo”, citou o escocês.

Robertson vê com otimismo o futuro da Otan e diz ter a certeza de que, em alguns anos, a Aliança não só continuará existindo, mas também aumentará de tamanho.

“Passei quatro anos tentando convencer a Suécia e a Finlândia a solicitarem sua adesão à Otan. (O presidente russo) Vladimir Putin conseguiu isso em apenas quatro semanas”, comentou. EFE