Acusação a bispo na Nicarágua é “ato cínico de Estado totalitário”, dizem EUA

San José (EFE).- O principal responsável para a América Latina do Departamento de Estado dos EUA, Brian Nichols, qualificou nesta quarta-feira como um “ato cínico de um Estado totalitário” a acusação em Manágua contra o bispo nicaraguense Rolando Álvarez pelo suposto crime de conspiração.

“Monsenhor Rolando Álvarez é um líder espiritual para milhões de nicaraguenses e um defensor do diálogo e da reconciliação. Representa o melhor do povo nicaraguense”, disse  em mensagem o secretário-adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental.

Na mensagem, enviada aos jornalistas pela assessoria de imprensa da embaixada dos Estados Unidos na Nicarágua, Nichols disse que acusar o bispo Álvarez “de conspirar para minar a integridade nacional é o ato cínico de um Estado totalitário”.

O bispo Álvarez, muito crítico ao governo do presidente Daniel Ortega, foi indiciado ontem pelo Ministério Público nicaraguense pelos crimes de formação de quadrilha para atentar contra a integridade nacional e propagação de notícias falsas por meio de tecnologias de informação e comunicação em prejuízo do Estado e da sociedade nicaraguense.

O hierarca, bispo da diocese de Matagalpa e administrador apostólico da diocese de Estelí, ambas no norte da Nicarágua, se sentará no banco dos réus em 10 de janeiro de 2023, para uma audiência inicial.

O padre exilado Uriel Antonio Vallejos foi acusado no mesmo caso.

Governo Ortega e a Igreja Católica

Álvarez, de 56 anos, é o primeiro bispo preso e acusado desde que o presidente Ortega voltou ao poder na Nicarágua em 2007, depois de coordenar uma Junta de Governo de 1979 a 1985 e presidir o país pela primeira vez de 1985 a 1990.

A Polícia da Nicarágua, chefiada por Francisco Díaz, cunhado de Ortega, acusa o bispo de tentar “organizar grupos violentos”, supostamente “com o objetivo de desestabilizar o Estado da Nicarágua e atacar as autoridades constitucionais”.

A prisão e acusação contra o bispo nicaraguense, outros sete padres e dois outros colaboradores é o capítulo mais recente de um ano particularmente turbulento para a Igreja Católica nicaraguense com o governo Ortega, que rotulou os bispos como “golpistas” e “terroristas”.

As relações entre os sandinistas e a Igreja Católica na Nicarágua foram marcadas por atritos e desconfianças nos últimos 43 anos.

A comunidade católica representa 58,5% dos 6,6 milhões de habitantes da Nicarágua, segundo o último censo nacional. EFE