EUA desvinculam imunidade de Bin Salman de tensão nos laços bilaterais

Washington (EFE).- O governo americano desvinculou nesta sexta-feira a tensão existente nos laços bilaterais com a Arábia Saudita da decisão de recomendar imunidade ao príncipe herdeiro do reino, Mohammad bin Salman, no processo aberto contra ele nos Estados Unidos pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi.

O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, disse em uma coletiva de imprensa telefônica que “se trata de uma determinação legal, não tem absolutamente nada a ver com os méritos do caso em si”.

“É uma determinação legal exigida pelo Departamento de Estado e proporcionada pelo Departamento de Justiça a pedido do tribunal”, considerou.

Ontem à noite, o Departamento de Justiça dos EUA apresentou um documento legal ao tribunal federal do Distrito de Columbia, no qual o governo de Washington recomenda que Bin Salman seja declarado imune, dada sua condição de primeiro-ministro saudita, no caso pela morte de Khashoggi, assassinado em 2018 no consulado saudita em Istambul.

Em setembro, o rei saudita Salman bin Abdulaziz nomeou seu filho e príncipe herdeiro como primeiro-ministro, em um movimento que o blindou de qualquer processo nos EUA, onde a namorada de Khashoggi, Hatice Cengiz, entrou com uma ação contra ele.

Meses antes, em julho, Biden havia visitado o país árabe para convencê-lo a aumentar a produção de petróleo para reduzir os preços em um contexto de escassez causado pela guerra na Ucrânia, mas em outubro Riad decidiu se alinhar à Rússia na OPEP+ e optou por diminuí-la.

EUA reavaliam vínculos

Diante dessa decisão, o governo Biden disse que iria reavaliar seus laços com a Arábia Saudita.

Nesse contexto, Kirby admitiu nesta sexta-feira que as relações com o reino saudita continuam tensas até hoje.

“Nada mudou o ponto de vista do presidente de que essa revisão (dos vínculos) é necessária”, declarou o porta-voz, que destacou que Biden está ciente do processo legal nos EUA contra Bin Salman e do documento judicial apresentado ontem à noite por seu governo.

Kirby enfatizou que “o presidente foi muito, muito claro sobre o assassinato brutal e bárbaro do senhor Khashoggi”.

Em sua petição judicial, o governo dos EUA “informa ao tribunal que o réu Mohammad bin Salman, primeiro-ministro do Reino da Arábia Saudita, é o líder do governo e, consequentemente, está imune a este processo”.

Do Departamento de Estado, o vice-porta-voz de Exteriores, Vedant Patel, explicou em coletiva de imprensa que os EUA aplicam este princípio aos chefes de Estado e de governo de outros países.

“Não tem nada a ver com o mérito do caso, a determinação da imunidade é legal. Os EUA têm consistentemente aplicado estes princípios a chefes de Estado, governo e ministros das Relações Exteriores durante seus governos enquanto estão no cargo”, observou Patel.

O vice-porta-voz de Relações Exteriores ressaltou que essa é uma prática que não foi quebrada e é algo que os EUA esperam que façam outros países.

Questionado sobre o que aconteceria no caso do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, Patel destacou que os EUA não o consideram chefe de Estado ou de governo.

Segundo a CIA, está provado que Bin Salman “aprovou uma operação em Istambul para capturar ou matar” o jornalista saudita porque ele era visto como um dissidente cujas atividades minavam a monarquia.

Khashoggi escreveu colunas para o jornal “The Washington Post” e outros meios de comunicação criticando o príncipe herdeiro, que, como governante de fato antes mesmo de seu pai o nomear primeiro-ministro, reprimiu rivais e dissidentes. EFE