Petro diz que esquerda da América Latina erra ao não abraçar luta pelo clima

Álvaro Mellizo.

Sharm el-Sheikh (EFE).- A esquerda latino-americana cometeu um “erro” ao não abraçar a luta de adaptação à crise climática como uma bandeira, e este será um esforço que “as forças políticas progressistas” que estão chegando ao poder em toda a região terão de abordar agora, declarou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em entrevista à Agência EFE.

Na cidade egípcia de Sharm el-Sheikh, onde participa da Cúpula do Clima (COP27), maior evento organizado pelas Nações Unidas para enfrentar a crise climática, Petro refletiu sobre a inércia que levou “tanto a direita como a esquerda” na região a serem bastiões da “economia extrativista e de combustíveis fósseis”, da qual sair “é a única alternativa”.

Confira a entrevista a Petro:

EFE: A defesa da Amazônia é uma questão na qual a Colômbia está tomando a liderança?

Petro: Até este momento, ficamos quase sozinhos nesta defesa. O atual governo brasileiro (do presidente Jair Bolsonaro) não estava interessado em salvar a floresta tropical, é um pilar fundamental do clima. Se ela desaparecer, entraremos em um ponto sem volta para todo o planeta.

Salvar a floresta é fundamental no âmbito de uma política de equilíbrio climático, e os governos são os responsáveis. Neste momento, a Colômbia e o atual governo da Venezuela já decidiram agir em conjunto conosco neste campo. Esperamos que o governo brasileiro faça o mesmo, e assim teremos um eixo decisivo, de modo que, do ponto de vista dos governos, tenhamos a força orçamentária para uma política eficaz de resgate da floresta tropical.

Tudo o que falta é solidariedade empresarial privada e estatal para que a política pública possa ser sustentada ao longo do tempo, isso é fundamental. Se não durar, o que quer que façamos agora será destruído em um curto espaço de tempo.

EFE: A América Latina não é protagonista nesta cúpula?

Petro: Na realidade, as forças tanto da direita como da esquerda que governaram a América Latina têm se mantido relutantes em estar na vanguarda da defesa da humanidade diante da crise climática.

Basicamente, porque o nosso modelo econômico se baseou na exportação de matérias-primas, gás, minerais, petróleo e carvão, desempenhando um papel político menor na transição de uma economia de combustíveis fósseis para uma economia descarbonizada.

O problema progressista na América Latina é que não tem contemplado – e este é um problema importante – a luta contra a crise climática. Pelo contrário, tem se baseado mais na defesa dos preços internacionais do petróleo, carvão e gás.

Com estas mudanças (políticas) que estão ocorrendo em todo o continente, acreditamos que agora é o momento (para retomar esta luta). É a nossa proposta, que está no programa do meu governo, mas não sem pressão. O fato de eu ter dito como encerraríamos a exploração de petróleo e carvão provocou pressões para destruir o peso, além de outras pressões políticas e econômicas agudas para manter uma economia dependente da exportação de petróleo e carvão, o que eu penso ser suicida.

Propus aos governos da América Latina, às novas forças progressistas que estão ganhando eleições uma após outra, que mudemos a agenda do progressismo latino-americano e passemos do apoio ao nosso esforço de desenvolvimento das matérias-primas e do seu preço internacional para uma política de produção, de transição para uma economia produtiva baseada no conhecimento.

EFE: E a região aceitaria esta transição?

Petro: Estamos gerando um novo debate, um diálogo americano nesta perspectiva e com a ideia de uma agenda política para superar a emergência climática, que precisa ter peso nos governos latino-americanos. Ainda mais quando temos uma vantagem que o resto do mundo não tem, que existe um enorme potencial para desenvolver energias limpas: água, vento, sol, etc.

São a base que pode gerar uma descarbonização das economias e um salto para a frente na economia mundial, porque poderíamos muito bem estar na vanguarda de um novo conceito de desenvolvimento.

Vejo uma oportunidade. A América Latina pode ser política e economicamente poderosa se aceitar as regras de descarbonização para as suas próprias economias. Estar ancorado durante cinco séculos a uma economia primária de exportação de recursos não renováveis não tem sido eficaz do ponto de vista do desenvolvimento econômico e da superação da pobreza.

EFE: E esta esquerda está pronta?

Petro: Está sendo aberta uma discussão. Fiquei surpreso com a minha última visita à Venezuela, que é uma economia ancorada no petróleo e que, por isso, foi facilmente bloqueada. Mas este bloqueio nos levou, paradoxalmente, a pensar em um mundo sem petróleo. Apesar do drama econômico que estão vivendo e da polarização, surgiu um debate na sociedade venezuelana sobre como seria uma Venezuela sem petróleo.

Sendo assim, se esta reflexão for seguida de políticas concretas de descarbonização, e se esta discussão puder ser apresentada na Bolívia e em economias extrativistas típicas, como Chile e Peru, podemos dar o salto.

As novas circunstâncias no Brasil e no México permitiriam um eixo político inovador em termos de colocar a agenda para superar a crise climática no núcleo fundamental da agenda progressista.

EFE: O senhor acredita nisso?

Petro: Não há alternativa. Às vezes, reflito sobre se estamos indo depressa na Colômbia, se estamos exercendo pressão sobre as estruturas e interesses econômicos de uma sociedade que durante décadas esteve ligada à exploração do carvão e do petróleo. É difícil pensar na Colômbia sem isso, e a pressão para não darmos passos no sentido da transição energética e da descarbonização é enorme.

A incapacidade da economia europeia de se descarbonizar, a contínua dependência de recursos como o petróleo e o gás levou a guerras. O passo para a descarbonização é uma ficção, é mais retórica destas COPs em que estamos, mas os passos concretos com uma mudança do sistema econômico que pode impactar muitos interesses não estão sendo dados. O que estamos fazendo, até certo ponto, é continuar no caminho para a extinção.

Mas não há alternativa, não há outra forma a não ser mudar as economias e as políticas porque, caso contrário, a espécie humana morrerá. Não há outra opção. EFE