Rota Natural explora belezas da Argentina de forma sustentável

Javier Castro Bugarín

Buenos Aires, 16 dez (EFE) – Andrés Calla descobriu o que era se “sentir pleno” aos 22 anos de idade, quando decidiu pegar uma mochila e sua câmera e viajar pelas províncias de Salta e Jujuy, no norte da Argentina, sem suspeitar que essa viagem improvisada e solitária mudaria sua vida para sempre.

“Eu gostava de sair para caminhar sem rumo pelos vilarejos e comecei a me conectar muito com aquele garotinho que, por curiosidade, sumia e assustava seus pais porque ninguém sabia onde ele estava”, lembrou Calla em entrevista à Agência EFE.

Mas essa viagem, que acabou se estendendo pela Bolívia e culminando nas areias do Deserto do Atacama, no Chile, estava longe de ser sua última aventura.

Após meses de preparativos, Andrés Calla e Jimena Sánchez, sua esposa, decidiram abandonar seus empregos na área de publicidade e colocar o pé na estrada, transformando uma “paixão” que só podiam aproveitar nas férias em um estilo de vida.

O sucesso deles foi tão grande que, atualmente, ambos fazem parte da equipe de comunicação da chamada Rota Natural, um projeto promovido pelo Ministério do Turismo e Esporte da Argentina que busca desenvolver o ecoturismo de forma sustentável.

A “prova de fogo” para Calla e Sánchez, que provaria se eles poderiam ou não viver do turismo, ocorreu em 2013: uma viagem de bicicleta de 5.000 km entre as cidades de Ushuaia e La Quiaca, seguindo a famosa Rota 40, que liga a fronteira sul do país com a Bolívia.

Paisagens eternas

Durante esses meses de reflexões à beira da estrada e lutas com o vento patagônico, Calla e Sánchez descobriram, pedalando, as nuances e cores da Argentina, que apresenta uma combinação única de paisagens no mundo, com bosques, montanhas, desertos e selvas que podem ser visitados em qualquer época do ano.

“Em setembro, você pode estar usando uma regata em Misiones ou esquiando de casaco em Ushuaia”, lembrou Calla.

Ele também acrescentou que a Argentina é o oitavo maior país do mundo, mas conta com apenas 46 milhões de habitantes, motivo pelo qual a “intervenção humana” na natureza é baixa e o ecoturismo muito mais fácil.

Calla destacou ainda o “triângulo de contrastes” formado pelo glaciar Perito Moreno no sul, as Cataratas do Iguaçu no nordeste e o planalto andino no noroeste.

A bicicleta como meio de transporte

Para alcançar uma “conexão real” com a naturezal, Calla recomenda viagens de bicicleta, que permitem “aprimorar” os estímulos a ponto de transformar o percurso em uma “experiência sensorial”.

“Não é a mesma percorrer 10 quilômetros de carro do que em uma bicicleta, onde você está gerando endorfinas em seu corpo, e praticando uma atividade física. Aqueles 10 quilômetros, que passam despercebidos em um ônibus ou em um carro, podem nunca mais serem esquecidos se você estiver pedalando”, insistiu Calla.

Neste sentido, o país sul-americano oferece uma variedade quase inigualável de paisagens: desde áreas montanhosas a mais de 4.000 metros de altitude, onde o oxigênio é uma variável a ser levada em conta, até florestas que contam com pequenas trilhas que são mais apropriadas para ciclistas amadores.

Além disso, a baixa densidade populacional da Argentina permite uma se desconectar do mundo urbano, e viver momentos de “liberdade” que são impensáveis em outras regiões.

“Conversando com pessoas que viajam de bicicleta pela Europa, o que eles me disseram é que é muito difícil sair com ela e acampar na natureza, porque há sempre uma cidade ou uma pequena vila próxima, e quando eles vêm aqui se sentem livres”, afirmou Calla, que comparou essas experiências com aquelas vividas pelos “exploradores” do passado.

Desenvolvimento de infraestrutura

Incentivar o deslocamento em bicicleta é um dos objetivos da Rota Natural, um programa criado há dois anos e meio com o objetivo de desenvolver um turismo de baixo impacto, algo que requer investimentos significativos em infraestrutura.

“Quando milhares de pessoas vão a um lugar, elas saturam tudo, então você tem que fazer com que elas se movimentem e se espalhem. O espaço existe, mas é preciso construir estradas e alojamentos, e disponibilizar serviços”, afirmou Calla sobre uma iniciativa que também tem como objetivo “descentralizar” o turismo na Argentina.

“A ideia é que você não fique 10 dias em Bariloche, mas que percorra 300 quilômetros. Assim você não geraum turismo de impacto”, concluiu Calla, que ainda mantém a emoção de uma criança que viveu 1001 aventuras na natureza. EFE