Papa alerta para “efeito dominó” desencadeado pelas guerras

Cristina Cabrejas.

Nursultan, 15 set (EFE).- O papa Francisco advertiu nesta quinta-feira sobre o nefasto “efeito dominó” que podem desencadear as guerras e pediu aos líderes mundiais que se comprometam “em favor da paz e não das armas”, no último discurso que fez no Cazaquistão, no encerramento do sétimo Congresso de Lìderes de Religiões Mundiais e Tradicionais.

O papa leu o discurso após a aprovação da Declaração Final do Congresso, assinada por ele e pela maioria dos 80 representantes das delegações de 50 países presentes. O nome daqueles que não assinaram não foram informados.

O líder da Igreja Católica falou mais uma vez da “loucura insensata da guerra”, embora, não tenha citado diretamente o conflito da Ucrânia, deflagrado pela invasão russa.

Francisco lembrou que o Congresso surgiu após os ataques de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, diante do “clima incendiário” que a violência terrorista queria provocar e que ameaçava fazer das religiões um fator de conflito”.

O pontífice observou que “o terrorismo com uma matriz pseudo-religiosa, o extremismo, o radicalismo, o nacionalismo alimentado pela sacralidade, ainda hoje fomenta medos e preocupações sobre a religião”.

CONDENAÇÂO DA GUERRA.

Francisco afirmou que, no documento final é destacado que o “extremismo, radicalismo, terrorismo e qualquer outro incitamento ao ódio, hostilidade, violência e guerra não têm nada a ver com o verdadeiro espírito religioso”.

Entre as delegações presentes no Congresso estava a da Igreja Ortodoxa Russa, desfalcada do líder, o patriarca Kirill, que defendeu por diversas vezes a invasão à Ucrânia.

Hoje, o papa alertou que “a paz é urgente” porque “qualquer conflito militar ou fonte de tensão e confronto hoje só pode ter um efeito dominó prejudicial e comprometer seriamente o sistema de relações internacionais”.

Segundo Francisco, a paz “não é a mera ausência de guerra, nem se reduz ao mero equilíbrio de forças contrárias, nem surge de uma hegemonia despótica, mas é justa e precisamente chamada de obra da justiça”.

Por isso, o pontífice garante que os líderes religiosos são quem devem estar na “primeira linha para irradiar uma convivência pacífica.

“A Declaração apela aos líderes mundiais para que parem com os conflitos e o derramamento de sangue em todos os lugares e abandonem a retórica agressiva e destrutiva”, disse o papa.

“Nós imploramos, em nome de Deus e em nome da humanidade: comprometam-se com a paz, não com as armas. Somente servindo à paz é que seu nome será grande na história”, completou Francisco.

CRÍTICAS DO BISPO DE NURSULTAN.

Embora para muitos os Congresso seja exemplo de diálogo e colaboração entre as religiões, o bispo auxiliar de Nursultan, capital cazaque, Athanasius Schneider, um dos mais críticos ao papa, questionou a participação pontífice no evento.

Embora tenha agradecido à visita do pontífice, considerou que o Congresso é como “um supermercado de religiões, que corre o risco de relegar à importância da Igreja Católica como a única religião verdadeira”, segundo afirmou à jornalistas qu acompanhavam o papa na viagem.

O papa destacou que o texto aprovado passará a fazer parte dos documentos das Nações Unidas, e lembrou que o documento cobra que “o respeito e a compreensão mútuos devem ser considerados essenciais e indispensáveis na educação religiosa”.

“Por isso, quem deseje expressar de maneira legítima sua própria fé, que seja amparado sempre, e em todo o lugar. Quantas pessoas, pelo contrário, ainda hoje são perseguidas e discriminadas pela sua fé”, lamentou.

MAIS MULHERES COMO LÍDERES.

Entre os apelos do documento final citados pelo papa está o de maior participação das mulheres em cargos de responsabilidade, embora tenha havido um número muito baixo de representação feminina no Congresso.

Dos 81 líderes que se sentaram na mesa redonda, havia apenas oito mulheres.

“Devemos envolver as mulheres em maior grau. Porque as mulheres cuidam e dão vida ao mundo, elas são o caminho para a paz. É por isso que apoiamos a necessidade de proteger sua dignidade e de melhorar seu status social como membros iguais da família e da sociedade”, disse o papa.

“Às mulheres também devem ser confiados papéis e responsabilidades maiores. Quantas escolhas que levam à morte seriam evitadas se as mulheres estivessem no centro das decisões. Nos comprometemos a torná-las mais respeitadas, reconhecidas e incluídas”, completou. EFE