Rigidez muscular comum pós-AVC não é sequela sem tratamento, alerta especialista

São Paulo (EFE).- A rigidez e os espasmos musculares que atingem cerca de 40% dos pacientes que sofrem um acidente vascular cerebral (AVC) não são uma sequela permanente e, quanto antes for realizado tratamento, melhores são as chances de recuperação, alertam especialistas.

Apesar de comum, esta condição pouco conhecida se chama espasticidade e provoca um estado constante de contração muscular, normalmente nos braços e nas pernas, associado a uma perda da mobilidade voluntária, segundo explicou em entrevista à Agência EFE o presidente da Associação Brasileira de Fisiatria e Reabilitação Física (ABFRF), Eduardo Melo.

De acordo com o fisiatra, a espasticidade é, na verdade, um sintoma que ocorre após doenças neurológicas que afetam regiões do sistema nervoso central que controlam o movimento, como lesões medulares, traumas cranianos, paralisia cerebral e o AVC, que é a mais comum entre elas e a segunda maior causa de mortes no Brasil.

“Quanto maior a lesão, maiores a chances de a espasticidade aparecer. No caso do pós-AVC, ela surge entre os primeiros 10 dias e alcança seu pico em até três meses. E como está associada à perda de força e a movimentos involuntários, atrapalha muito as atividades do dia-a-dia do paciente, piorando a qualidade de vida”, destacou o médico.

“Ela causa não só dificuldades de mobilidade, mas leva, por exemplo, a um maior risco de desenvolver pneumonia, de sofrer quedas e fraturas e de ter infecção urinária, além de causar dores, entre outros”, acrescentou.

O desafio da conscientização

No entanto, o que mais preocupa, segundo Melo, é a falta de informação e conscientização sobre este sintoma, não só entre a população em geral, mas também entre especialistas, o que faz com que a procura por tratamento seja muito baixa.

“Nosso maior desafio é mostrar para a sociedade como um todo que a espasticidade não é uma sequela natural e tem tratamento. Inclusive, muitos profissionais de saúde continuam acreditando que ela é algo natural, e a maior parte dos médicos não dá importância à reabilitação”, lamentou.

O presidente da ABFRF ressaltou que, no Brasil, o tempo médio que um paciente que teve AVC demora para procurar um tratamento especializado é em torno de 22 meses, e alertou para os riscos dessa demora.

“A espasticidade não deve ser aceita (…) Quanto antes se começa o tratamento, melhores são a qualidade de vida e o potencial de recuperação funcional, e menores são as dores e possíveis complicações”, frisou.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 70% das pessoas que sofrem um AVC não recebem um tratamento posterior adequado, o que contribui para que ela seja a principal causa de incapacidade por longo prazo.

Por isso, a ABFRF está promovendo, em conjunto com a Allergan (uma empresa AbbVie), a campanha informativa “Tempo É Movimento” com o objetivo de conscientizar sobre as sequelas do AVC.

A campanha de comunicação, que teve início em outubro e se estende até o final de novembro, buscará convencer mais pessoas de que quanto antes o tratamento for iniciado, melhores serão os resultados.

Tratamento pós-AVC

Melo explicou que o principal tratamento inicial para a espasticidade é a fisioterapia associada à terapia ocupacional, que ajudam o paciente na recuperação motora e a atingir o maior grau possível de independência para a realização de tarefas diárias.

“A fisioterapia tem um papel muito importante e deve ser iniciada de forma precoce. Assim que receber alta do hospital, o paciente deve começar essa reabilitação, e buscar também um profissional de fonoaudiologia em caso de problemas de fala e deglutição causados pelo derrame”, afirmou.

Ele também lembrou que é possível associar uma série de medicamentos que ajudam a potencializar a resposta ao tratamento de reabilitação, sejam via oral para relaxar o paciente ou para aplicar de forma local na musculatura afetada, entre eles a toxina botulínica (Botox).

“Eles ajudam o paciente a começar a fisioterapia e a melhorar um pouco a força voluntária e o controle do movimento, diminuindo o tônus exagerado”, enfatizou.

Além disso, ele explicou que tanto a fisioterapia quanto a terapia ocupacional não são para o resto da vida.

“Elas são escolas para que você aprenda, tenha um desenvolvimento melhor, recupere o máximo possível da sua funcionalidade após o seu quadro e, depois disso, normalmente, se dá o retorno às atividades normais”, explicou o fisiatra, que estimou uma média de três meses de período de reabilitação para casos mais leves.

Exercício e alimentação, chave na prevenção e no tratamento

Melo também falou sobre a importância de praticar exercícios e de se alimentar de forma balanceada para diminuir as chances de ter um AVC e outras doenças crônicas.

“A atividade física isolada é o fator que mais protege contra doenças, principalmente o derrame, mas também pressão alta, diabetes, entre outras, então é muito importante que a gente consiga ter uma vida ativa e uma alimentação mais saudável para ajudar nessa prevenção”, destacou.

Ele explicou que para não ser considerado sedentário, um adulto deve praticar pelo menos 150 minutos de exercícios físicos por semana, de forma constante.

“A melhor atividade é aquela que você gosta, então não importa se ela é aeróbica, se é exercício com peso, musculação, pilates ou dança”, ressaltou.

O fisiatra também recomendou trocar produtos ultraprocessados por alimentos naturais, além de manter um consumo equilibrado de carboidratos, proteínas e vegetais.

De acordo com a Organização Mundial do AVC, se estima que, no mundo, um a cada quatro adultos acima dos 25 anos de idade terão um episódio de AVC durante a vida, e hipertensão, diabetes tipo dois, colesterol alto, sobrepeso ou obesidade, tabagismo, uso excessivo de álcool e sedentarismo são alguns dos fatores que aumentam esse risco.

No entanto, essas doenças crônicas e o sedentarismo também podem prejudicar o processo de reabilitação, motivo pelo qual a adoção de hábitos saudáveis é necessária em todos os casos.

“Se você já tinha pouco músculo, já era fraquinho, sedentário, tabagista, aquele músculo já tem uma qualidade pior, então a resposta ao tratamento também é menor”, explicou.

O especialista também lembrou que quem possui hábitos saudáveis, quando tem mais chances de ser uma lesão pequena, o que reduz também o risco de espasticidade pós-AVC e facilita a recuperação. 

Por último, ele defendeu a prática de exercícios físicos, mesmo que adaptados, por parte de pacientes pós-AVC para dar continuidade ao processo de reabilitação após receberem alta da fisioterapia.

“Existem alguns mitos de que quem teve uma doença ou um derrame não pode fazer exercício. Mas não só pode como deve. Ele deve ser estimulado a fazer porque a longo prazo ele vai precisar manter a atividade física, não importa a sua idade”, concluiu. EFE