EFE/ Miguel Sierra

Alegria marroquina inunda as ruas holandesas após classificação épica na Copa

Imane Rachidi |

Haia (EFE).- A classificação do Marrocos para as oitavas de final da Copa do Mundo após eliminar a Holanda desencadeou, desde a madrugada desta terça-feira, a euforia entre os marroquinos em território holandês – a maior comunidade imigrante do país -, com comemorações multitudinárias, buzinaços, bandeiras e fogos de artifício por uma vitória que muitos vivenciaram como algo mais do que um triunfo esportivo.

Banner WhatsApp

A partida, disputada no México e com início às 3h da madrugada na Holanda, manteve acordados milhares de torcedores de ambas as equipes, com centenas de municípios holandeses estendendo os horários de bares e cafeterias para permitir que os fãs acompanhassem o jogo que classificou os Leões do Atlas na disputa por pênaltis.

As ruas de bairros com uma importante população de origem marroquina, sobretudo em Amsterdã, Utrecht, Roterdã e Haia, ficaram cheias de carros buzinando, motocicletas, bandeiras vermelhas e verdes e abraços entre famílias e grupos de jovens, momentos transmitidos ao vivo pelos canais públicos da Holanda.

No entanto, como tem sido habitual neste tipo de comemoração do futebol, o ambiente festivo costuma começar de forma pacífica, mas a tensão aumenta quando a polícia tenta desmobilizar os participantes.

Este foi o caso das comemorações em Schilderswijk, em Haia, um dos principais bairros da comunidade marroquina no país. Segundo a polícia, algumas pessoas atiraram pedras, fogos de artifício e até uma bola contra os agentes, o que levou ao envio da tropa de choque e ao uso de um canhão de água para dispersar a multidão.

A polícia realizou 17 prisões por crimes como perturbação da ordem pública e violência contra agentes em Haia e Roterdã.

A partida tinha uma forte carga emocional, já que boa parte dos jogadores da seleção marroquina nasceu ou cresceu em território holandês e se formou em suas categorias de base antes de optar por representar o país de origem de suas famílias.

«Foi um jogo muito especial. Tenho um vínculo muito forte com a Holanda; cresci lá. Muitos amigos jogam na seleção holandesa, e eu poderia ter jogado pela Oranje. Sinto muito que este confronto tenha acontecido tão cedo no torneio», reconheceu o lateral Noussair Mazraoui, nascido na Holanda e ex-jogador do Ajax.

Mazraoui destacou, em declarações à televisão pública holandesa NOS, que «foi uma partida magnífica, com muitíssima qualidade», e acrescentou: «Estamos comemorando como se tivéssemos vencido a final».

Anass Salah-Eddine, outro jogador marroquino nascido na Holanda, admitiu que a partida tinha um significado especial por enfrentar amigos e antigos companheiros.

«Estava com muita vontade de jogar contra a Holanda, contra os meus amigos, para demonstrar que somos melhores (…) Nunca esquecerei esta noite. Vou levá-la comigo por toda a vida. Isso mostra que estamos construindo algo muito bonito e esperamos continuar assim», afirmou.

O herói da classificação, que cobrou o pênalti decisivo, foi Ismael Saibari, nascido na Espanha, mas criado futebolisticamente na Holanda e que atua no PSV Eindhoven.

«Já sabia em qual canto ia bater. Tínhamos treinado isso. Só era preciso colocar bem a bola e, por sorte, o goleiro caiu para o outro lado», explicou ele em uma entrevista na qual exibia pontos de sutura em uma sobrancelha devido a uma pancada sofrida durante o jogo.

«As pessoas merecem, porque nos apoiam nos momentos bons e nos ruins», completou Salah-Eddine, enquanto as comemorações continuavam tanto no vestiário quanto nas ruas do Marrocos e da Holanda, momentos de euforia que também estão inundando as redes sociais.

O resultado do jogo também monopolizou as manchetes da imprensa holandesa. A NOS destacou em sua página principal: «A Copa do Mundo termina para a Holanda: um Marrocos sólido vence um duelo de infarto nos pênaltis».

Por sua vez, o jornal De Volkskrant admitiu que «havia algo especial sobre esse sofrimento compartilhado» e ressaltou que «a nova geração de holandeses entende que apoiar a equipe marroquina não significa ser contra a Holanda».

Para o jornal AD, a Holanda «está devastada após ser eliminada da Copa do Mundo», enquanto o NRC publicou uma análise na qual considera que a seleção laranja «mostrou-se desorientada, seu rival foi superior e mereceu a vitória».

No campo político, o primeiro a reagir foi o ultradireitista Geert Wilders, conhecido por seus ataques políticos à diáspora marroquina na Holanda, que publicou uma imagem gerada por inteligência artificial na qual aparece como árbitro da Fifa cumprimentando Achraf Hakimi, com a mensagem: «Parabéns, Marrocos!».

Duas horas depois, ele compartilhou imagens dos distúrbios e acrescentou: «Que limpem essas ruas e expulsem esses baderneiros para o Marrocos junto com suas famílias! Este é o nosso país. Fora daqui!». EFE